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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Conto de infância - felicidade, saudade.





QUAL É A IDADE DA SAUDADE?




Como é que eu vou dizer que  sou feliz?
Na minha infância,
onde eu nasci,
havia árvores,
havia pássaros.
Havia o cão que eu amava.
Me levaram pra cidade grande,
onde eu passei a viver com saudades.
Contava pra todo mundo
sobre a esperteza do cavalo,
sobre a força do boi
puxando o arado.
Lembrava da mina d'água
e do pé de manga.
Dizia que aquela era a manga
mais gostosa do mundo.
E assim eu cresci nesta saudade.
E hoje falta água na cidade.
Tenho que fazer caminhada
respirando fumaça dos automóveis.
Mas,
antes?
Era só subir no pé de goiaba,
no pé de manga.
Não tinha colesterol,
porque aquela era a melhor ginástica.
Hoje,
vou ser feliz com o comprimido.
A medicina me faz viver mais.
Remendado,
falseando o sorriso
para dizer que sou feliz.
Mas que saudade ainda tenho
daquela passarada,
revoando alegre sobre o arrozal!
Bem te Vi,
João Penenê,
João de Barro,
Tiziu,
Sanhaço,
Maritaca,
Azulão e Azulego,
Trinca Ferro,
Anu do Campo e Anu Preto.
Andorinha,
Rolinha,
Pomba Juriti,
Canarinho e Periquito.
E muito mais...
A cidade servia para eu contar
da alegria que eu tinha lá na roça.
Correndo feliz com o cão pelos campos.
Lembrando com saudades dos meus avós,
dos meus tios,
e da criançada.
A cidade sempre foi boa,
para eu olhar da grade da janela
e ver outra grade de outra janela.
E entender o passarinho
que queria fugir da gaiola.
Meus amigos eram eles,
os passarinhos,
mas todos feneceram,
igualmente os bois,
os cavalos,
meus avós,
e muitos amigos,
meninos.
Ora,
como foi bom ter sido menino!
Ter sido amigo do boi,
do passarinho e do cabrito.
Ter corrido atrás do franguinho,
do  porquinho e do gatinho.
Ter visto a Maria Fumaça,
ao longe,
da janela.
Minha tia regando o pé de roseira.
Meu tio regando o pé de couve.
Que bom ter sido menino.
Para lembrar da peneira
que minha avó fazia
e com ela peneirava o milho e o feijão.
Também com ela me distraia
no pequeno corguinho
tentando pegar peixinhos,
mas nunca pegava.
Ainda bem,
eles eram mais espertos do que eu.
Ainda bem que fui menino,
para lembrar das folhas soltas pelo chão.
Das águas fartas que jorravam
pelos barrancos das estradas de terra
quando chovia.
Ainda bem que fui menino
e pude ver o pé de cedro e o de jacarandá,
bem pertinho do terreiro.
Vi e senti o perfume de tantas flores.
Do pé de café,
da romã e da maçã.
Da maracujá e da laranjeira.
Vi a paina da paineira.
Ainda menino viajei pra outro mundo
e não voltei mais.
Cresci e ainda sou estrangeiro.
Mas não consegui avisar pra todo mundo,
pra não cortar as árvores,
não transformar tudo em cidade.
Era mais bonito quando conseguia
abraçar o boi,
o cavalo,
o gato,
o cachorro,
o galo,
o pato,
o cabrito.
Como é que eu vou fazer
pra mentir que sou feliz
sem ser mentira?
Eu conheci a luz da lamparina.
O clarão da lua nas estradas.
E isso bastava.
Não andava só,
nas noites nas estradas.
Nos acompanhavam o coaxar dos sapos.
O grilar dos grilos.
As luzes dos vaga-lumes.
O gorjeio das corujas.
Só voltarei a ser feliz
se puder avisar isso pra todo mundo.
Pois é!
Não sei se todo mundo vai entender
o que eu digo.
Se poucos viram e viveram o que eu vivi.
Talvez existam,
e tomara que existam,
outras raízes.
Mas que elas não sejam cortadas,
para que a felicidade  do futuro
não dependa da saudade.

Evaldo